Em 1884-1917, a capital do Paraná enfrentava um surto de crescimento populacional dentre grandes fatores a imigração avançada pela política oficial. Com essa "nova" populaçao, os hábitos, costumes e atividades de Curitiba mudaram.
Estes processos coincidiam com a derrocada da Monarquia e a emergência do regime
republicano, com a formulação de medidas que previam atuar nas áreas econômica, política e educacional, organizando e controlando a vida coletiva. No âmbito destas preocupações e visando a sua legitimação, o novo regime atribuía à educação um papel preponderante, por meio da qual se construiria a nacionalidade brasileira. Com bases no saber científico e nos pressupostos da medicina, o binômio família/cidade torna-se alvo de atenções, atendendo às propostas da política governamentista.
Neste contexto, os imigrantes alemães e/ou seus descendentes procuraram criar
condições de sobrevivência e adaptação, encontrando formas distintas de conviver e de
manifestar-se. Num processo não interrompido, com fluxos de imigração e de contributos renovados e caracterizado por mecanismos de ajustes e reformulações, constituíram comunidades, fundaram associações, construíram identidades. E ainda asseguraram a educação formal diferenciada para seus filhos, criando algumas escolas, dentre elas, a Deutsche Schule.
A formação de comunidades evangélicas em território brasileiro está intrinsecamente
relacionada ao processo imigratório, alavancado pelo governo imperial, no início do século XIX, com o intuito de povoar regiões inabitadas, por meio do sistema de pequenas propriedades e de arregimentar braços europeus para a lavoura.
Desde a primeira fase desse investimento, cujo marco é a fundação da colônia de São
Leopoldo (RS), em 1824, os imigrantes alemães foram assentados principalmente nas
províncias do sul do país, mas também em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco e Ceará, embora em menor número.
Entre estes, havia uma maioria de indivíduos acatólicos que necessitava enfatizar certos valores e práticas distintas da religião majoritária e oficial do país. Assegurados pelas leis vigentes, formaram suas comunidades e criaram locais onde pudessem celebrar seus cultos e desenvolver suas vivências religiosas.
Tais iniciativas multiplicaram-se e tomaram formas diversificadas, no decorrer do
tempo. A ausência de uma instância superior que estabelecesse diretrizes religiosas para as comunidades dava margem para que estas atuassem de forma independente, cada uma enfrentando situações diferenciadas de participação e atuação. Outrossim, o movimento imigratório foi acompanhado de outros movimentos internos de migração de uma colônia para outra, dos núcleos coloniais para os núcleos urbanos e, à medida que as vias de comunicação foram sendo abertas, estes deslocamentos atingiram outras províncias e/ou estados brasileiros, conferindo a cada experiência comunitária uma dinâmica própria.
A instalação dos imigrantes alemães em Curitiba ocorreu dessa maneira, por meio de
um processo de migração, que se verificou contínuo, espalhando-se pelo meio urbano e,
principalmente, no rocio da capital. Ao final da década de 1870, seis dos quatorze núcleos coloniais existentes no município registravam a presença de alemães e, embora oriundos de outras regiões, preponderavam aqueles procedentes de Rio Negro e da Colônia Dona Francisca, atual Joinville (SC).
As primeiras famílias que chegaram a Rio Negro, em fevereiro de 1829, eram naturais
de Trier e cidades vizinhas, na Prússia. Sua pretensão era de fixarem-se no Rio Grande do Sul, mas, ao aportarem no Rio de Janeiro, teriam recebido o convite para dirigirem-se ao Paraná, um povoado às margens do Rio Negro, denominado “Capella Curada da Matta no Caminho do Sul”, ao qual aceitaram. Outras famílias alemãs teriam também se deslocado para a região, entre 1833-1860, vindas de Santos, de Blumenau, de Joinville e de cidades do Rio Grande do Sul.
Na Colônia Dona Francisca, as primeiras levas de imigrantes chegaram em 1851,
trazendo alemães, suíços e também noruegueses, os quais se estabeleceram em três núcleos diferenciados. Com profissões e níveis financeiros variados, a grande maioria desses indivíduos era protestante. Desde o início, tentou-se ali uma organização de cunho político, com a instalação de um conselho comunal composto por onze membros eleitos pelos próprios colonos, o qual iria elaborar normas, no sentido de conter as desordens e estabelecer diretrizes para questões financeiras, jurídicas, religiosas e escolares. Os impasses e dissensos, todavia, abortaram essa ação, causando indignação por parte de seus idealizadores.
Com base nestes dois exemplos, podemos perceber uma significativa mobilidade
desses imigrantes, sendo importante considerar, no caso da Colônia Dona Francisca, o mapa demonstrativo elaborado por Rodowicz (1992, p. 35), o qual indica a saída de 29% de pessoas, apenas no primeiro ano de sua instalação. A região inóspita, as moléstias desconhecidas, a possibilidade de viver em ambiente urbano e exercer suas atividades profissionais – alguns haviam transportado mobília e maquinário, outros, como o carpinteiro
Christian Strobel, procuravam meios de subsistência (Strobel, 1987), – tais fatores teriam contribuído para o êxodo dessa população.
Nessa colônia de maioria protestante, havia interesse pela manutenção de uma vida
espiritual, conforme sua confissão religiosa, e a Sociedade Colonizadora de Hamburgo,
responsável por aqueles primeiros assentamentos, contratara pastores para o atendimento religioso, ao menos num primeiro momento, entre 1851 e 1865.20 As famílias vindas desta colônia catarinense estariam habituadas com a presença de um pastor que lhes ministrava os cultos regularmente e, ao estabelecerem-se em Curitiba, procuraram por alguém que pudesse dar continuidade a esse atendimento.
Johann Friedrich Gaertner atendia algumas comunidades em um serviço itinerante,
dentre elas, as de Morretes e de Curitiba, tendo celebrado seu primeiro culto no ano de 1860, nesta última cidade. A partir de então, ele passou a viajar a cavalo, tornando mais freqüentes suas visitas aos fiéis evangélicos e criando assim um vínculo com eles. Os cultos eram celebrados em casas particulares, mensalmente, e o pastor recebia um mil réis de cada família, as que gozavam de melhor condição financeira arcavam com as despesas de alimentação e montaria (Nadalin, 1984).
Três anos depois, seu pastoreio atendia a vinte e cinco famílias radicadas na capital da
Província22 e, em 1866, a então Communa Evangélica Allemã de Curitiba contava com quase o dobro de famílias associadas, procedentes de várias regiões do Império alemão e da Suíça.
O primeiro domingo do Advento, dia dois de dezembro, foi escolhido para a prédica inaugural e como data da fundação da Communa, cuja diretoria fora composta por Bernhard Wilhelm Meyer, Friedrich Wilhelm Bernhard Weigang, August Adolf Otto Schütze, Jakob Kummer, August Blitzkow. É importante destacar que Johann Friedrich Gaertner também atuou como professor, ensinando as primeiras letras em língua alemã, numa escola que teve seu funcionamento irregular, desde seu início, por não estar de acordo com a legislação vigente (Vechia, 1998a, p. 224-226). Seu pastoreio, da mesma forma, teve vida efêmera, ele foi acusado de não desenvolver corretamente suas funções pastorais (Schmidt, 1980, p. 33), opinião que não era unânime entre os membros da comunidade. Uns tomaram o partido de Gaertner, outros optaram pela sua substituição e contataram o pastor Kröhne, no Rio Grande do Sul. Malgrado algumas contradições nas datas de chegada deste, estima-se que sua vinda para Curitiba tenha ocorrido entre 1868 e 1869, mas, por não querer assumir a função de professor, foi também convidado a se retirar.